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O torcedor raiz não vê a hora de gritar "gol" no estádio

por Ruan Dias em 31 de Agosto de 2021 11:07

Com a sequência da vacinação em massa, volta com força a pressão para reabertura de estádios e arenas pelo país. Os clubes estão sentindo muita falta das receitas de bilheterias e muitos estão desesperados pelo retorno do público e sonham em, pelo menos, voltar a ter o mesmo nível de receitas que tinham antes da pandemia.

Mas será que o público voltará com força aos jogos de futebol pós-pandemia? Basta observar alguns pontos que teremos essas respostas. Primeiramente analisar como era o comportamento do público antes da Covid-19. Os estádios já ficavam cheios e a presença de público era massiva? A resposta é não, e aqui já temos o primeiro ponto de alerta.

Segundo levantamento do GE, em 2019, a Série A do Brasileirão teve uma ocupação médias dos estádios de 47%, Copa do Brasil, 41%, Série B de 21%, Série C de 19% e Série D de apenas 9%. Constatamos que o público já estava ausente nas principais competições nacionais da principal modalidade esportiva do Brasil.

Outro fator que merece toda atenção é a crise financeira que assolou quase todas as economias, do mundo em 2020. De acordo com cálculos do Instituto Locomotiva, a pandemia retirou R$ 247 bilhões de consumo da classe média brasileira, com o IBGE apontando para 14,1 milhões de desempregados no país.

Por último, mas não menos importante, temos que considerar que o outrora torcedor fanático e assíduo nos estádios, agora, está há um ano sendo obrigado a assistir aos jogos no conforto da sua casa, onde a cerveja é liberada, o ambiente é agradável, o sofá é acolhedor, a comida é saborosa, além de não precisar se deslocar e muitos outros elementos que infelizmente tornam a ida a um estádio de futebol, no Brasil, uma verdadeira aventura.

Aqueles que estão saindo de casa e assistindo, quando permitido, aos jogos em bares e restaurantes, além de criarem rituais e amuletos e novas maneiras de interação, ainda estão desfrutando de experiências muito mais agradáveis do que as oferecidas na maioria dos estádios deste país.

No entanto, não podemos esquecer do torcedor raiz, aquele mesmo que extravasa nos momentos de raiva, jura não se estressar e deixar o time de escanteio, mas, na primeira oportunidade após a rebeldia, declara seu amor ao seu clube do coração. Esse, sim, conta os segundos para retornar ao seu habitar natural. A distância dói tanto, que bate até saudade daquele lateral “cabeçudo” que “cisca-cisca”, mas não acerta um cruzamento na área; ou quem sabe daquele atacante cheio de grife, que no mano a mano com o goleiro isola para linha de fundo e coloca a culpa no gramado.

Não importa se faça chuva ou faça sol, o torcedor raiz sempre estará lá. Ele é aquele cara que chega com 4 horas de antecedência, faz um churrasquinho no estacionamento, reúne a rapaziada para uma social e, assim que o juiz apita o término da partida, independente do placar, ele já se programa para retornar no próximo duelo.

Dentro de campo, os jogadores sentem falta da torcida

Um estudo recente da Universidade de Leeds, no Reino Unido, vasculhou os resultados de 4.844 partidas disputadas nos 11 campeonatos mais importantes da Europa. A lista inclui não só os principais, como a Premier League, da Inglaterra, e os campeonatos Espanhol, Alemão e Italiano, como competições que costumam receber menos atenção, como as ligas nacionais da Rússia e da Turquia. Assim como ainda ocorre no Brasil, a presença de públicos nos estádios europeus foi banida no começo da pandemia por causa do risco de contaminação. Mas, antes mesmo da vacinação, o Campeonato Alemão já tinha retomado a presença dos torcedores nos jogos. A última Eurocopa, em Portugal, teve público em todas as partidas. Mesmo a chegada da variante Delta não mudou a liberação.

Isso permitiu aos pesquisadores comparar como os times se comportam em jogos com e sem sua torcida no estádio. Os resultados apontam que os torcedores influenciam positivamente em praticamente todas as estatísticas. Em cada partida em casa, por exemplo, os times marcaram 0,39 gol ponto a mais do que jogando fora. A cada cinco jogos, eram dois pontos a mais na tabela. Sem torcida, a vantagem caiu para 0,22 ponto. Nos mesmos cinco jogos, obtiveram só um ponto. Também marcaram um gol a mais a cada quatro partidas em casa na comparação com os duelos fora. Sem torcida, precisavam jogar sete vezes em casa para alcançar o mesmo gol. A ausência de público também afeta os juízes, que marcam mais faltas nos estádios vazios. Também dão menos cartões amarelos, até se um time é flagrantemente mais faltoso. E expulsam menos ainda.

O estudo peneira outras estatísticas do futebol, como número de escanteios e chutes a gol para mostrar que, sem a torcida presente, a equipe tem mesmo um rendimento pior. O que lança luz em um componente psicológico importante do futebol: o vínculo entre torcedores e jogadores. No grito, já aconteceram alguns milagres. Viradas impossíveis, vitórias contra um adversário mais forte… Não faltam exemplos. Com as arquibancadas vazias, pesam mais os fatores objetivos, como a qualidade do elenco, diminuindo a vantagem de jogar em casa.

Retorno mais que próximo

Após 15 meses, os torcedores podem estar perto de se reencontrar com as arquibancadas aqui no Brasil. Nas últimas semanas, os clubes e a CBF têm discutido um planejamento para efetivar o retorno parcial dos fãs aos estádios, movimento que tem previsão para o segundo turno do Campeonato Brasileiro e para as quartas de finais da Copa do Brasil, no início do mês de setembro.

Nas próximas semanas, a CBF deve emitir um documento sobre o retorno dos torcedores, e uma comissão irá definir os moldes do projeto para a retomada. A tendência é que a CBF busque, junto às equipes, um aval das autoridades estaduais para que as partidas sejam realizadas com público parcial.

Uma das imposições que podem ser feitas pela CBF aos torcedores é a apresentação de um comprovante de imunização para ter acesso às partidas. Pensando nisso, a empresa Mooh!Tech desenvolveu um sistema denominado “Chronus i-Passport”, um passe livre digital que permite a qualquer torcedor imunizado ou testado negativo estar apto a participar da partida, minimizando os riscos de propagação da covid-19.

A Federação Pernambucana de Futebol (FPF), a FCF (Federação Cearense de Futebol) e clubes como Náutico, Fortaleza e Ceará anunciaram a adesão da nova tecnologia. Para o retorno do público aos estádios em Pernambuco e no Ceará, os torcedores precisarão validar seus i-Passport com teste RT/PCR de até 48 horas ou com o comprovante de vacinação.

Das 27 unidades federativas, 7 já liberaram ou decidiram que irão autorizar a volta de torcedores aos estádios de futebol durante a pandemia. São elas: Acre, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso, Roraima e São Paulo (a partir de 1° de novembro).

E na Bahia, papá?

O governador Rui Costa (PT), prega cautela sobre o retorno de público aos estádios, mas já adiantou que existirá exigências quando a liberação for decretada. Segundo o chefe de estado, só poderá sentar nas arquibancadas quem estiver completado a imunização contra a covid-19.

Podemos até criar todas as ferramentas para que a paixão da torcida possa ser estimulada independente dos fatores externos, porém, nada consegue substituir o verdadeiro e sincero ato fraterno, a comunhão e cumplicidade de dois estranhos, o extravasar das emoções e sentimentos represados por tanto tempo: a comemoração e o abraço na hora do gol! Ah, que saudades de gritar “gol” no estádio!

 

Foto:  Lucas Melo/AG.BAPRESS


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